
Na primeira sessão legislativa de 2026, a Câmara dos Deputados decidiu começar o ano olhando para dentro — e para cima. Em votação realizada nesta terça-feira (3), deputados aprovaram dois projetos que reformulam as carreiras do Legislativo federal e promovem uma profunda mudança na estrutura de remuneração de servidores da Câmara e do Senado, com impacto fiscal estimado em cerca de R$ 1 bilhão.
As propostas, aprovadas sem grande resistência no plenário, ampliam significativamente o peso das gratificações por desempenho e por ocupação de funções estratégicas. Na prática, o novo modelo permite que a remuneração total de servidores chegue a até 100% acima do salário-base, impulsionada por bônus, adicionais e benefícios acessórios — os já conhecidos “penduricalhos”.
Embora os textos defendam um discurso de modernização administrativa, eficiência e meritocracia, críticos apontam que a reformulação abre caminho para a institucionalização de supersalários no coração do Poder Legislativo. Com as novas regras, cargos de topo da carreira podem alcançar remunerações próximas de R$ 77 mil mensais, valor que ultrapassa com folga o teto constitucional na prática, ainda que tecnicamente fragmentado em diferentes rubricas.
O momento da decisão chama atenção. A aprovação ocorre em meio a debates sobre ajuste fiscal, contenção de gastos e pressão por cortes no orçamento público — temas frequentemente usados pelo próprio Congresso para justificar restrições a políticas sociais, investimentos públicos e reajustes no salário mínimo.
Para servidores do Legislativo, a mudança é apresentada como correção de distorções históricas e alinhamento a modelos de gestão por desempenho. Para parte da sociedade civil e especialistas em contas públicas, no entanto, o recado político é outro: enquanto cobra sacrifícios da população, o Parlamento garante ganhos expressivos à sua própria estrutura.
A votação, realizada logo na abertura do ano legislativo, reforça a percepção de que temas sensíveis ao interesse corporativo avançam com rapidez no Congresso, enquanto reformas estruturais e pautas de impacto social seguem travadas em longas negociações.
Com impacto bilionário e efeitos concentrados no topo da máquina pública, a decisão reacende o debate sobre privilégios, transparência e o papel do Legislativo na condução da responsabilidade fiscal — um discurso frequentemente defendido, mas nem sempre praticado.